PARA NÃO ME PERDER NO DISCURSO DO OUTRO, DO PRÓXIMO, TENTO ENCONTRAR O MEU.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Silêncio

"No silêncio escutamos nossos próprios desejos e carências, e os das outras pessoas; nele podemos saborear novas formas de alegria e de convívio; nele aprendemos até a apreciar mais as palavras, pois só no silêncio se abrem os verdadeiros diálogos. Com verdade, com dignidade, com alguma beleza, exercendo a nossa humanidade menos rasteira. Ele é necessário para escutar a chuva que chega sobre árvores e telhados: doce como um colo de mãe, reconfortante como os passos da pessoa amada no corredor. A gente vive de maneira minimamente ética (pode ser apenas educada) a cada dia, e ainda percebe o rumor da chuva nas árvores, ou da consciência falando para o coração atento? "(Fragmento Conectivo)
Lya Luft - Entre Palavras - Ponto de Vista - Revista Veja/Nov2005/Edição nº1993
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O silêncio e o tempo são sábios, essa frase é bem batida, mas a grande sacada do silêncio é que só ele é capaz de resgatar a nossa dignidade, quando as palavras ditas já não são capazes de causar efeito, quando ninguém mais se entende, ou melhor, quando o interlocutor já não deseja nos entender. Nessa hora o silêncio pode falar mais, porque o silêncio gera uma pausa para reflexão e deixa o interlocutor respirar, internamente o silêncio tem a força de um grito. Para quem espera nossas palavras o silêncio pode ser uma agonia, a figura estática da indiferença, quando na verdade para quem o oferece ele pode ser a resignação de quem está cansado de lutar. (Impressões - Pulcra)
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... o silêncio seria acima de tudo uma resposta sincera, ora repreensiva, por vezes gritante "o silêncio tem a força de um grito", feliz essa frase sábia e inédita para mim, que se traduz no cansaço das palavras, já gastas e sem sentido - nas atitudes ousadas, porém sinalizando desequilibrio - na esperança, contudo já ferida e no desejo mesclado entre sonhos, fantasias e caprichos... silenciar é retirar o time de campo, é vivenciar um processo introspectivo que leva ao resgate dos nossos valores e principios, é talvez a única oportunidade de rever aquele jogo, que sabemos tão bem as regras, embora não tenhamos conhecimento das cartas que nos chegarão... o silêncio introspectivo é resgate, é a descoberta da essência, do nosso Outro que participa, que interage e por vezes não sabemos lidar e aproveitar da sua inocência, leia-se inteligência no confronto da vida... (Conexões - Hodie)
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O silêncio então seria a nossa última cartada, o último trunfo, guardado na manga, seria a ultima injeção de insulina do diabético? ou melhor seria o choque que ressuscita o cardíaco? Afinal, será que o silêncio não tem um objetivo? Será que o silêncio não é a terapia de choque dos loucos? Eu acho que o silêncio quando ele é o verdadeiro "silêncio" no sentido desse conotação que estamos falando ele tem sempre uma consequencia. E é o resultado dessa consequencia que quem o oferece espera. O silêncio é o jogar tudo para o alto. È apostar na última carta, sem medo de errar, porque quando chega no silêncio já não se tem mais o que perder.... (Questionamentos - Pulcra)
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as dicotomias perder e ganhar, acertar e errar na perspectiva do silêncio, do grito, da expressão denotam um conjunto de ações permeadas pela inquietação... as consequências do silêncio é talvez a grande resposta que buscávamos na insistência do discurso, na sinceridade do olhar, no toque... sair de cena, agir com a frieza da indiferença seria uma alternativa ou a mera tradução de um sentimento em chama? Essa "fuga" que o silêncio pode evidenciar não seria literalmente o grande trunfo, o último que talvez o julgamos ser a tábua de salvação? O silêncio não seria metaforicamente aquele "fio de esperança" que teima em ficar grudado, roubando a capacidade de raciocinio, de lidar com as situações tão claras, evidentes? Ah, o silêncio... a expressão reprimida pelo desejo, que fala através do comportamento, do físico, a estranha sensação de que não há mais nada a fazer... (Conclusões - Hodie)

Um comentário:

kercya nara disse...

“O exercício do silêncio,é tão importante como a prática das palavras...”
Em meio ao “zunzun” desordenados de tantas vozes,e mistura de sons,ter o silêncio,é carregar o grade triunfo do se conhecer.O silencio como dito gera a reflexão e a resposta.Isso me faz lembrar uma musica,interpretada pelo grupo kid abelha,que diz: “vamos falar mais baixo,vamos para pra escutar,uma barriga roncando,uma mame chorando...vamos falar mais baixo,vamos para pra escutar o bumbo do tambor,o abacateiro em flor,vamos ouvir a noite cair,e o sol ajudar a lhe levantar”.Portanto fazendo uso de uma frase tão antiga,mas modificando-a em nosso favor:em terra de grande zoada,que saber calar e ouvir o silencio,é rei!